
Concerto.
(Dar as mãos não é apenas entrelaçar os dedos – desengana-te se achavas que sim. Dar as mãos é, mais do que tudo, ter vontades comuns. Não gosto que me encostem à parede com palavras. Ainda assim, agrada-me um bom desafio. Começa o que não disseste demónio, diz o que tens a dizer! Só jogando limpo é que chegaremos a bom porto. Garanto-te, não há nada mais estimulante do que a transparência. E, apesar de ela não querer, eu confio em ti.
Faz-me um sinal qualquer, um balanço de ancas, um jogo de joelhos, um aceno subtil de cabeça. Faz-me o que gostarias que te fizessem, se te vissem falar de mais. Confesso – eu às vezes embarco em conversas banais. E, pior, em pensamentos tipificados e em atitudes estereotipadas – embarco na vulgaridade que se espalha por aí, pelas monstras das lojas e nos sacos de supermercado que embatem contra as nossas pernas nos passeios, expulsando-nos para a estrada e assumindo-se donos e senhores daquilo que diríamos nosso – que se espalha por esse mundo fora. Frágil, esta noite estou tão frágil. Quebro por dentro, não limpo os cacos. Há nuvens de fumo a entrarem-me pelo nariz e a saírem pelas orelhas. Estalo a língua no céu da boca e cruzo os dedos dos pés. Põe-me o braço no ombro, dá-me qualquer coisa de teu: as mãos, o cabelo, o rosto. Envolve-me, cria fisicamente uma ligação comigo; torna-te, nem que seja apenas por um momento, uma continuação de mim. Sim, eu preciso de alguém, eu preciso de ti. Preciso de nós. Só assim me poderei dar a alguém – quando isso significar não me dar a ninguém, porque, no fundo, quem me recebe sou eu mesma, mas em ti. Percebes?)
(Dar as mãos não é apenas entrelaçar os dedos – desengana-te se achavas que sim. Dar as mãos é, mais do que tudo, ter vontades comuns. Não gosto que me encostem à parede com palavras. Ainda assim, agrada-me um bom desafio. Começa o que não disseste demónio, diz o que tens a dizer! Só jogando limpo é que chegaremos a bom porto. Garanto-te, não há nada mais estimulante do que a transparência. E, apesar de ela não querer, eu confio em ti.
Faz-me um sinal qualquer, um balanço de ancas, um jogo de joelhos, um aceno subtil de cabeça. Faz-me o que gostarias que te fizessem, se te vissem falar de mais. Confesso – eu às vezes embarco em conversas banais. E, pior, em pensamentos tipificados e em atitudes estereotipadas – embarco na vulgaridade que se espalha por aí, pelas monstras das lojas e nos sacos de supermercado que embatem contra as nossas pernas nos passeios, expulsando-nos para a estrada e assumindo-se donos e senhores daquilo que diríamos nosso – que se espalha por esse mundo fora. Frágil, esta noite estou tão frágil. Quebro por dentro, não limpo os cacos. Há nuvens de fumo a entrarem-me pelo nariz e a saírem pelas orelhas. Estalo a língua no céu da boca e cruzo os dedos dos pés. Põe-me o braço no ombro, dá-me qualquer coisa de teu: as mãos, o cabelo, o rosto. Envolve-me, cria fisicamente uma ligação comigo; torna-te, nem que seja apenas por um momento, uma continuação de mim. Sim, eu preciso de alguém, eu preciso de ti. Preciso de nós. Só assim me poderei dar a alguém – quando isso significar não me dar a ninguém, porque, no fundo, quem me recebe sou eu mesma, mas em ti. Percebes?)
* Jorge Palma a itálico
4 comments:
Genial.
Parabéns Luísa, fazes parte da geração futura de grandes escritores! ;)
Fico sem palavras com a tua escrita !
anseio pelo dia em que vou poder ler um livro teu na íntegra, sou tão fã, meu bem :)
Que bonita música e que bonito é esse texto! És um fenómeno Ana Luisa!
Tiago - Oh Tiago, isso vindo de ti! :D
Raquel - Adoro quando sonhas por mim!
Zé - Gostaste? :D
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