Monday, December 31, 2007

2008

2008 vai ser um ano de mudança. Com o seu quê de continuidade, claro está, mas, ainda assim, talvez um dos anos de maior ruptura que posso esperar.

Hoje não estou para discursos. E, em vez de desejos, tracei antes 12 objectivos. Se se concretizarão é uma coisa que não posso saber com esta antecedência: ainda assim, sendo objectivos, dependem muito mais de mim do que da sorte (da qual eu serei uma eterna desconfiada).
Ora, portanto...

1- Entrar na Universidade (primeira opção e primeira fase);
2- Gostar do curso, adaptar-me, ter notas decentes, arranjar casa (mantê-la arrumada), sobreviver às praxes, começar a construção de uma vida independente sem grandes dificuldades;
3- Obter o DELE (Diploma de Espanhol como Língua Estrangeira) de Nível Inicial com boa nota;
4- Um bom percurso no Parlamento dos Jovens;
5- Uma boa Academia de Verão (U.A.) + (muitos) Encontros de Sainettes;
6- A viagem;
7- Muitas tardes no Alfa, com a dona Sandrina (bem como em todos os outros cafés que hei-de aprender a frequentar);
8- Muitas viagens de comboio (e teatros, musicais, concertos, exposições, compras..!);
9- Muita inspiração (que, como se nota, tem feito falta) + comentários no blog (já agora…) + muitos textos escritos com a Ju, a Sarinha e o João;
10- Galé (e isto com uma lagrimazinha de saudade ao canto do olho) + Aveiro;
11- Ajudar a que as actividades da Associação de Estudantes (AEEBSO) dêem certo;
12- Muitas visitas à patinagem, noites em casa da Princepeza (e o que lhes está inerente), muitos livros bons, chocolate quente, muitos filmes de chorar do princípio ao fim, abraços grátis, abraços de borla, abraços (simplesmente), comoções, emoções, risos, gargalhadas, sorrisos. Lágrimas (por coisas boas), mimos, telefonemas engraçados, mensagens simpáticas, dedicatórias sentidas, galões e pães com chouriço, pessoas novas (aos montes), experiências novas (aos montes), chá, visitas de estudo, reencontros (com pessoas que não vejo há muito tempo e com algumas das que estão mesmo ao meu lado), uma passagem de ano tão boa como suponho que esta vá ser, apreender a tocar viola em condições, participar no espectáculo de ballet, apreender, divertir-me, amadurecer.

Estar muito tempo com as pessoas de quem gosto. Ser feliz.
Sejam também.

Friday, December 21, 2007

Cavalinho

De tempos a tempos, sinto uma súbita vontade de andar de triciclo. Subo ao sótão, transporto-o escada a baixo e sento-me nele, de olhos fechados. Roo as unhas até ao sabugo (latejam, latejam!) e deixo o tempo voltar para trás, em câmara lenta. Não gosto de tudo o que foi a minha infância – ainda assim, sinto uma falta terrível da minha visão do mundo. Agora, cresci e, paralelamente, cresceu também o desencanto. O triciclo é o meu elo de ligação com o passado. Transporta-me para o tempo em que os prédios eram monstros altos, em que existiam fadas, em que com ervas do campo todas as doenças eram curáveis e em que as luzinhas da árvore de natal eram mágicas.
É preciso ver que, nesse tempo, o meu triciclo era muito mais do que um brinquedo de plástico: na verdade, ele era um cavalo. Ou, melhor dito, um pónei. A minha capacidade de transformar a realidade era tão grande quanto a destreza dos meus dedos no que tocava a desmanchar tranças. Era só começar: a partir daí, quase nem me apercebia do que estava a acontecer.

Gostava de voltar a ter essa capacidade. Sinto-me roubada pelo crescimento: está-me a tirar muito mais do que o que me dá. Ou, talvez, as minhas expectativas de criança fossem muito elevadas. Seja como for, sinto falta. E as minhas pernas já não cabem no triciclo: o pónei, felizardo, é da Terra do Nunca – não cresce – e já mal aguenta o meu peso.

Fotografia: http://olhares.aeiou.pt/part_child_half_me/foto1639897.html

Monday, December 10, 2007

No carro

Estou no carro. As árvores passam a grande velocidade, transformadas em manchas de cor e movimento que os meus olhos não conseguem isolar e individualizar. De tempos a tempos, uma casa, um carro, uma pessoa à beira da estrada. São elementos que não ficam nem marcam: existem, simplesmente, tal como eu, e sei-o porque os vejo através do vidro do carro.
Cá dentro, está quente (tenho a sofage ligada). O termómetro, no vizor em frente ao volante, oscila entre os 3 e os 5 graus centígrados, o que significa que, lá fora, está frio. Será que as árvores o sentem? Estou numa realidade à parte, estagnada. O Mundo gira e passa por mim, ignorando-me e não se dignando, nem por mera questão de cortesia, a abrandar.
Ligo o rádio e deixo que a música ténue se sente nos bancos vazios. Largo a voz que, aos altos e baixos, tenta acompanhar a do cantor. Uma nota mais aguda rouba-me o fôlego. Travo a fundo e fecho os olhos.

Nota: Naturalmente que o que está em movimento é o carro – e, consequentemente, eu mesma. No entanto, não é isso que os sentidos nos dizem. Reiterando o óbvio, Alberto Caeiro foi um génio.

Tuesday, November 27, 2007

Na sala

Sentei-me no chão da sala com as pernas cruzadas e um copo de chá à frente. Encostei as costas à parede, deixei tombar a cabeça para trás e fechei os olhos. São horas de me dar tempo, de aceitar as férias de vida que me são impostas. A porta da sala e vão entrando pessoas. Entrando não! – Desfilando. Vão passando pessoas do quotidiano, com conversas banais e de segundos que, no instante seguinte, se desvanecem no ar. As pessoas e as conversas. E eu fico a assistir àquilo tudo enquanto trauteio pensamentos soltos.
Não posso dizer que esteja desconfortável: visto uma camisola de lã preta e umas calças de fato-de-treino roxas; tenho um gorro e umas meias fortes, daquelas que são aderentes a determinados pisos. Não “ligam alhos com bugalhos”, nada combina com nada, poder-se-ia dizer que estou ridícula. Contudo, fisicamente confortável, quente.
Por entre a multidão que entretanto se juntou (deve ser hora de intervalo!) vou descortinando rostos. A Maria acena-me, enquanto um sorriso lhe baila na cara. Está a falar com alguém que está de costas para mim. Não me apetece levantar; retribuo o cumprimento e desenho um sorriso ténue.
Mais pessoas, muitas pessoas. A minha turma ao canto, o pessoal do Instituto em roda, os meus pais junto àquela coluna. A Sininho voa por cima das cabeças, o Hugo está em mim, os meus amigos andam por ali, entretidos nas suas vivências. De vez em quando passam por mim, acarinham-me os cabelos e percebem tudo. (Tu não estás, e é isso que torna a tua presença tão marcante.)
Fecho novamente os olhos, numa tentativa de falsa abstracção. O barulho da corda do relógio irrita-me, atiro-o pela janela (a minha pontaria sempre foi motivo de orgulho). Shiu, pronto, deixem-me ficar. No próximo intervalo já me levanto e interajo com a sala.

Descobri um pau de giz e entretenho-me a fazer desenhos no chão. Os meus 17 anos estão a envelhecer na mesma proporção em que se infantilizam.


Tuesday, November 20, 2007

Alfarrabistas

Há caixotes de livros carentes dos dois lados da rua. Livros pequenos, grandes, de lombadas grossas ou finas, bem cuidados, com folhas comidas pelo tempo e pelas traças. Os alfarrabistas olham-me, por detrás de roupas e vidas andrajosas, e percebem o meu interesse. Aproximam-se e perguntam-me: “A menina procura alguma coisa em específico?” Explico o que pretendo e eles caem-me nas mãos. São livros usados, cujas folhas já foram viradas, cujas palavras já preencheram a vida de muita gente. Sinto-os palpitar: são fragmentos de vida que ali foram deixados, através dos dedos e do que apreenderam do meio envolvente. Sinto-lhes uma certa relutância em deixar o caixote; são vividos, já viram muita coisa, tornaram-se desconfiados. Exigem, por isso, que eu os conquiste. Passo-lhe a mão devagarinho, sopro-lhes o pó, explico-lhes ao ouvido que muito me honraria sua presença na minha estante, que estou receptiva àquilo que me têm a ensinar. Abraçam-me. Pisco o olho aos alfarrabistas e deixo-lhes os trocos da carteira. Guardo os meus novos amigos no saco de papel, com cuidado. Parece-me ouvir um dos mais velhinhos dizer para o da capa azul: “Vamos passar bons momentos na companhia dela, já estava farto de estar parado”.
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Saturday, November 10, 2007

Chega.

Procuro o conforto que me faz falta nos meus pensamentos. Enrosco-me dentro de mim, procuro-me. Agarro em tudo aquilo que poderá servir de retalho: sonhos, ideias, sentimentos, imaginação, aplausos interiores e exteriores, comoções. Teço tudo com uma linha fina e tento cobrir-me com essa manta peculiar – fico meia nua e a assombração do frio de um Inverno quente destrói-me as entranhas. Volto a vestir a roupa banal, companheira do quotidiano. A tranquilidade é-me exterior.

E a vida rola e rebola, como se fizesse pouco de mim.
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Tuesday, November 06, 2007

Bip-bip

Movimentos de corpos e de pessoas, manchas intensas de luz e sombra. É o dia das visitas por excelência, é o dia dos abraços tremidos ou do primeiro choro. Isto é o centro do mundo, onde se acaba ou se começa, por onde se passa, por onde se tropeça.
Metade da multidão traja pijamas; a outra parte veste cores garridas, de formato não estereotipado. Cada pessoa que passa por mim é alguém. Têm uma vida, tal como eu. E são tantas! O mundo, lá fora e cá dentro, não pára. Os acontecimentos sucedem-se, interligam-se, emancipam-se, esquecem-se. Mas acontecem, vão acontecendo.
Alguns dos que se passam cá dentro merecem aplausos completos, daqueles que são uma sequência de risos, sorrisos e palavras vãs. Aplausos daqueles que dispensam palmas. São histórias bonitas e anónimas que não se repetem nunca mais porque, quanto mais não seja, o elenco é diferente.

Outro bip-bip apressado a sair do bolso da bata branca de um enfermeiro cansado. Tudo é vida, até os objectos inanimados. E por duas razões: são fruto dela e existem para ela. Tal como nós, embora com diferenças perceptíveis.

Depois de uma tarde aqui, sentada numa cadeira de plástico, fria e desconfortável, sinto-me meia morta. Não pela dormência das pernas ou por qualquer outro factor físico. Sinto-me mentalmente parada, emotivamente só. Revejo as actividades que faço, aquilo com que preencho os meus dias e não fico melhor: falta qualquer coisa, uma ausência marcante de uma presença em falta. Sou jovem e as revoluções do tempo em que eu nasci já não se fazem de bandeira em punho: há outras maneiras, mais directas, e, acredito eu, mais eficientes.

Dia 1 e 2 de Dezembro, Campanha do Banco Alimentar Contra a Fome. Participem.

Saturday, November 03, 2007

Pote de Chocolate

Tudo começou com uma certeza: na ponta do arco-íris tinha que estar um pote cheio de chocolate. Nada fazia mais sentido! Era, pois, necessários encontrá-lo. Juntas, tentaram recrutar pessoas para incluir na expedição. Havia critérios a seguir, claro, não podia ser toda a gente. Ainda assim, encontraram um punhado de garotos da mesma idade que mantinham os pés da cabeça na Terra do Nunca e partiram, montados em bicicletas com asas.

Como nunca antes alguém estivera junto ao pote, não havia um mapa: felizmente, as fadas sabem ler caminhos nas estrelas e conhecem o dialecto rudimentar mas difícil dos aromas bons.
Lá pelo meio da história houve, como pertence aos desenhos animados, várias andanças emocionantes. Cães de várias cabeças, flores venenosas, peixes barbudos, tempestades de farinha e todo o género de coisas perigosas que possam imaginar. Na verdade, houve episódios que dariam, individualmente, livros de vários volumes.

Tudo está bem quando acaba bem. Chegaram, finalmente, num dia à tarde. Chovia e fazia sol, obviamente. E o pote – oh, o pote! – era tão grande que cabiam lá dentro todas as aventuras da viagem!
Até hoje, estão por lá, a deliciarem-se. Não fazem menções de voltar. A Alice encontrou o País das Maravilhas: elas, estão no Pote de Chocolate. E, de um sítio assim, não se regressa: porque simplesmente deixa de existir para onde voltar.
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Friday, November 02, 2007

Tuesday, October 30, 2007

CAMINHOS

Lá dentro, porém, não havia placa nenhuma. Quando a Maria deu por isso estava no palco, de novo (alguma vez teria saído de lá?), sem vestígios de porta atrás de si. Desta feita, era ele quem jazia morto.

A sala estava vazia, com a excepção de um espectador que ocupava uma das cadeiras da última fila. A Maria focou o olhar e percebeu, incrédula, tratar-se da sombra do Medo. Esse, encontrava-se cá bem à frente, a rir, estridentemente, a bater palmas, a pedir mais. Ela encostou os olhos e esperou que os ouvidos se fechassem àquele barulho perturbante. As lágrimas corriam incessantemente, sem que ela as conseguisse fazer parar. Não estava triste: na verdade, não sentia nada. Por isso mesmo as lágrimas não vinham de dentro e não eram salgadas. Eram só... lágrimas. Mesmo assim, molhavam. Encharcavam-lhe os cabelos e o rosto, marcavam-lhe a pele a vermelho, inchavam-lhe os olhos.


Sentiu uma leva brisa: estava de volta ao banco de jardim, com a sensatez ao lado. Talvez a placa fosse um mito. Talvez não. Na dúvida, valia a pena procurá-la, correr atrás do que realmente importava e deixar-se de elementos acessórios ao caminho.
Olhou para o relógio: havia ainda tempo para um croissant de chocolate, como lhe aconselhara uma fada. Levantou-se e sentiu-se de novo ela.

(Acaba aqui).

A um passo

A passagem do barco para a cabana foi relativamente simples: limitaram-se a saltar de um lado para o outro. Antes da porta havia uma pequena plataforma, de pedra, onde pararam os dois, a olhar atónicos como quem diz: “Nem acredito que chegámos”. Permaneceram neste impasse um bom bocado, alternando o cruzamento de olhares com a tranca pesada da porta. (Logo aqui já se vê a diferença, o fio dos outros dois nunca se quebrava).

Foi a Maria quem deu um passo em frente. Pressionou a barra de madeira antiga com as duas mãos, tentou levantá-la, deu murros de raiva, empregou uma força quase animal. Quando ele se decidiu a ajudar, com o intuito de serem dois, ela abriu-se como que por magia.

A Maria perguntava a si mesma o que haveria lá dentro. A luz do Sol não permitia que se percebessem contornos e a curiosidade ruía a pobre pequena. Secretamente desejava encontrar a placa: tudo naquele estranho mundo era possível. Repetiu silenciosamente “que seja a placa, por favor, que seja a placa e entrou, seguida por ele.

Fotografia: http://olhares.aeiou.pt/trancas_a_porta/foto1530232.html

Saturday, October 27, 2007

(RE)Construção

O corpo atraía-o e repelia-o, como se tivesse medo que ao toque se desvanece-se em pó. Como se tivesse medo do significado latente de um gesto terno ou de uma palavra melosa.

Ainda assim, puxou-a de novo para si. Voltou a encostar a cabeça da Maria, desta vez uma cabeça morta, ao seu lado esquerdo. Virou-lhe o coração do avesso, para não debotar, e pô-lo a secar ao sol. Depois, entreabriu-lhe os olhos, soprou-lhe um rasgar de vida nos lábios e pegou-lhe na mão, como se nada se tivesse passado. Assim, de dedos entrelaçados, remaram até à cabana. A Maria não se sentia ela mas também não era mais ninguém.

Descaminho

A água superficial do lago, aquecida pelo Sol, debatia-se com a profunda, fria, numa relação de amor-ódio invisível que resultava numa corrente fortíssima. A Maria debatia-se com os remos, ele com os braços.

O estouro físico da corrida e do desmaio, aliados ao esbracejar frenético, transformaram-se numa bola de ferro presa aos pés dele. A Maria percebe e, com a cara pintada de branco pelo medo, voa a ajudá-lo. Desprende o metal pesado, deita-o no barco e dá-lhe água a beber, com calma. Ele tosse e vomita um líquido viscoso que se mistura com a água dela, formando um elixir perigoso de sujidade diluída.

Ao acordar, sente-a. No mesmo instante, atira-a borda fora e pressiona-lhe a cabeça, com toda a força que a reanimação lhe entregou. Deixa que as lágrimas do lago lhe invadam o cérebro e despeja-lhe o elixir perigoso sobre o coração. Emprega aquilo que nunca será neste momento, privando-se, ao mesmo tempo, de sentir qualquer emoção. Dando-a como morta, deixa o corpo bonito a boiar na água aparentemente calma e deita-se no barco, a dourar o rosto e as pernas e descansar os braços.

Thursday, October 25, 2007

A caminho da cabana

Quando recuperaram a consciência estavam noutro lugar, desconhecido. Parecia que tinham sido ambos transportados para um mundo paralelo, sem conhecimento ou consentimento. Nenhum sabia que tinha acontecido o mesmo ao outro, uma vez que estavam separados por um lago enorme. Era um sítio estranho, muito estranho. Havia ainda uma cabana (daquelas dos desenhos infantis), de madeira, que se encontrava precisamente no meio do lago. Era ela que cortava o contacto visual que existiria entre eles, não fosse a sua existência.
Na margem da Maria estava estacionado um pequeno barco a remos, pintado de verde, preso com uma corda a um pau debilmente enterrado na terra. De qualquer maneira, no lago não havia ondulação e o tempo era sereno, pelo que não havia perigo. Depois de uma eternidade a olhar em volta e a pensar em coisas banais, a Maria decidiu-se finalmente a saltar para dentro do barquinho e a remar em direcção à cabana.

Do outro lado, porém, não havia nenhum barco verde. Nem vermelho, ou amarelo. Ele levou as mãos à boca, em concha, e gritou: Ai sim? Tomaras tu!”. Só depois do grito já ter fugido é que se apercebeu da estupidez que dissera! Ainda assim, deixou-se ficar. O importante era ter gritado, ter avisado quem quer que fosse que estava ali. O resto, pouco importava, ele nem sabia se naquela terra estranha se percebia o português. Além do mais, doía-lhe o corpo da queda, não lhe apetecia voltar a gritar.

A Maria já ia a meio do caminho quando ouviu um estranho grito. “Estarei maluca?”. Esperou um pouco, atenta, em compasso de espera. Aquele lugar parecia estar a gozar com ela, envolvendo-a numa quietude extrema. Atribuiu o grito à fraqueza e continuou.

Ele, farto de esperar, tirou os sapatos, as calças e a camisa e entrou no lago. Assim que a água lhe deu pela cintura, lançou-se para a frente e começou a nadar.

Tuesday, October 23, 2007

A caminho de um início

A Maria sentou-se num daqueles bancos que estamos acostumados a ver em jardins (o que fazia ele ali, não sei, não perguntem). Doía-lhe a planta chata do pé esquerdo e ainda nem ia a meio. Decidiu dormitar, para ver se recuperava a força física. Passou por um estado de semi-sonambolismo, em que sentia o corpo adormecido e a mente desperta. Lembrou-se de uma música que a marcara há já uns anos, dos Adiemus. As vozes femininas ecoavam e emanciparam-se, passando a fazer parte do próprio caminho. Sentia-se desencantada com a vida, como se dentro dela houvesse um bicho-papão sugador de felicidade. Sentia-se sozinha, desalentada. E parva. Não estava ela preparada para isto? Não. We never are.
Sacudiu o corpo e continuou. Para além da placa, procurava agora também a sensatez que sempre a caracterizara.

Enquanto isto, ele corria, em círculos, feito louco. Estava encharcado em suor devido à má racionalização do esforço. Desidratou e desmaiou.

Fotografia: http://olhares.aeiou.pt/apenas_existir/foto1368262.html

Sunday, October 21, 2007

Sem sentido

Fui. Voltei. Cheguei. Voltei a partir. Dei duas voltas ao labirinto, às cambalhotas, e sentei-me no chão a ler livros infantis.

“Era uma vez…”.

Foi uma vez. Ou duas, ou três. O que é que importa? Nas histórias da meninice também há pessoas más.

Monday, October 15, 2007

Violino (dor de pensar)

Preciso que a vida me corra no sangue e não apenas nos pés. Encosto-me à ombreira da porta e fecho os olhos, com derradeira esperança. Sangro pelo nariz muita da porcaria que, aos poucos, me foi enferrujando o cérebro e sinto laivos de loucura nas pontas dos dedos. Há um alçapão na minha cabeça e eu não tenho coragem de o abrir. Por entre uma tábua rachada sai o som ensurdecedor e pianinho de um violino desafinado. Invade-me os cabos do pensamento e racha-os, destrói-os, incapacita-os, invalida-os. Priva-me de mim: do que fui, do que sou, do que nunca fui e não voltarei a ser.lençóis roxos e rendados que me amarram e sufocam os sonhos, fazendo-os agoniar até ao fim. Não quero ver isto a acontecer, mudem de canal, deixem-me fechar os olhos. Ando para trás, desespero, tapo os ouvidos e grito, numa tentativa absurda de afastar do pensamento o violino e o agoniar de sonhos. Uma força magnética puxa-me em direcção ao abismo da tipicidade.
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Antes de cair, formulo uma pergunta sem entoação: a vida também precisa de uma vida. Percebo que sou eu mesma o violino e, por não me aguentar mais, matei-me.

Nota: Completamente influenciada por Fernando Pessoa (ortónimo).

Conceitos (Apeteceu-me, pronto!)

Há dois conceitos que eu detesto: o de freira e o de namorado de amiga minha. Não que deteste uma freira em particular ou o Tó, o Marco ou o António. Nada disso. Na verdade, tenho até em muita consideração o trabalho de solidariedade levado a cabo por algumas religiosas e, no geral, as minhas amigas escolhem rapazes bem formados e interessantes enquanto pessoas.

Ainda assim, as ideias gerais que caracterizam estes grupos de pessoas não encaixam em mim. Comecemos pelas irmãs de todos nós, mulheres do senhor nosso deus: como é que alguém pode achar que a rezar está a contribuir para um mundo melhor? Se Ele (o tal!) é tão bom como dizem, salva-nos a todos, sem perguntar quantas Avés Marias rezámos ou foram rezadas por nós em vida. Para além do mais, a Igreja Católica assemelhasse-me, nesta estranha relação matrimonial, a uma enorme colher daquelas que o povo diz não se meter entre marido e mulher. Mas enfim, são opções de vida e, quanto a isso, não há mais nada a dizer.

Os namorados das minhas amigas são outra espécie que me faz comichão. Primeiro, “orfanizam-me” nos intervalos. Depois, nas horas de almoço e nas tardes livres.
“ - Hoje ficas na escola à tarde?”
“ - Fico sim, vou namorar”.
Como se isto não bastasse, ainda nos invadem as conversas, materializados em comentários que, para uma pessoa carente, são mais difíceis de suportar do que a dor.

No fundo, talvez a razão resida toda no facto de eu ser uma agnóstica irremediável, solteiríssima.

Thursday, October 11, 2007

Depois do Fim

A Maria sempre foi uma rapariga sensata. Assim que acabou a peça levantou-se e foi à sua vida. Sabia ter todo um Mundo lá fora, à espera, que a aguardava com a mesma firmeza e determinação de sempre. O Mundo não desistia dela, simplesmente porque ela não desistia do Mundo.
Não estava triste. (Há coisas para as quais já “nascemos” preparados). Ainda assim, sentia-se atacada por uma súbita apatia, como se tivesse perdido, ainda que momentaneamente, a capacidade de sentir. Impunha-se uma comichão na cabeça e o coração estava dormente. Achou, pois, melhor sentar-se. Esperou, bebeu um copo de água com açúcar, pôs-se de pé num salto e seguiu em frente. Para onde? A caminho da placa que os outros dois tinham encontrado e onde tinham escrito a base da verdade do Mundo.

Ele foi também, mas por outro caminho. Apesar de não querer acreditar, está escrito nos princípios da nossa natureza que todos nos dirigimos para lá. Uns chegam, outros não. Eles conseguiram, mais tarde (bem mais tarde!), daí a muito tempo. Separados. Por caminhos diferentes, em alturas diferentes. No entanto, uma coisa tiveram em comum: foram a pé. E nunca se esqueceram quão importante tinha sido o outro para aprenderem a andar.

Wednesday, October 03, 2007

Antes do fim

O mel pinga e empapa-lhes os cabelos. Olham para cima e riem gargalhadas francas e honestas. Entrelaçam os dedos, melosos, e brincam com as mãozitas: com os nós dos dedos, com as linhas da vida, com o encaixe do pulso. Percorrem o braço um do outro, com a palma aberta e reguila. Chegam por fim aos olhos, já com pele e roupa completamente untuosas.

“- Hum, é doce!” – diz a Maria, provando um pingo que lhe caiu nos lábios e arregalando a expressão de prazer.

“- Diz que gostas de mim” – pede-lhe.
“Ai sim? Tomaras tu!” – replica, enquanto lhe puxa a cabeça e a encosta junto ao peito, do lado esquerdo, sempre do lado esquerdo.

O mel cai, vai pingando. Há histórias em que chovem flores ou em que se ouvem sininhos. Nesta, há um mel estranho que cai de lado nenhum. Nesta história, meloso de mel, não de lamechas. Isso é que não: isso é que nunca!
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Nota da autora: Para que se perceba, recomendo a leitura deste.