Wednesday, June 20, 2007

Apetites

Apetece-me ter boas ideias. Escrever qualquer coisa de que me orgulhe. Compatibilizar a roupa que escolho de manhã com as condições atmosféricas do resto do dia. Apetece-me mudar o quarto: pintar uma parede e arrastar uns móveis. Apetece-me limar as unhas e cortar o cabelo. Apetece-me andar descalça. Apetece-me correr de fato de treino no meio da cidade, passar uma tarde nos baloiços, conversar até de madrugada. Apetece-me beber leite frio, andar de roupão um dia inteiro, dormir. Ir acampar. Apetece-me ouvir música. Abrir os pulmões e cantar Beatles. Apetece-me pôr os livros da Mafaldinha todos em cima da mesa-de-cabeceira. Apetece-me calçar um sapato de cada cor. Gargalhar. Ir às compras, ligar o rádio na frequência máxima, organizar papeis. Pintar nas folhas coloridas que o Galamba me deu (e ir tomar café com ele!). Estar com aquelas pessoas. Ler livros a sério, dos que não se lêem em tempo de exames. Passar horas na “Letra” a sonhar outras tantas no Alfa, a engordar. Apetece-me vestir a saia das pintas. Ir ao cinema. Besuntar o corpo com cremes e tomar banho no momento imediatamente a seguir. Ter um namorado. Ter boas notas. Apetece-me ser parva. Apetece-me ser raptada por extraterrestres. Apetece-me conhecer pessoas. Apetece-me não fazer nada. Apetece-me aspirar debaixo da cama. Pôr bâton do cieiro. Escrever a vermelho. Jogar futebol. Ir à feira. Forrar uma caixa de sapatos, fazer uma almofada com restos de tecidos, escrever um poema.

Apetece-me crescer. Apetece-me ter tempo para fazer isto tudo e muito mais.

Maiô

O vestidinho de dança preto, simples, de lycra, já está acabado. Tem a saia um pouco comprida, pelo que sobe ao mais pequeno movimento, mas o bódi assenta-me bem. Deixa-me as costas destapadas e as alças finas seguram fransinamente tudo o que há para segurar. É confortável, maleável. Com ele, sinto-me uma bailarina de verdade: não que o seja, de todo, mas essa sensação percorre-me num frenesim e ajuda-me a absorver a magia da música. Abandono-me inteira e deixo que o meu corpo seja o capitão dos movimentos pouco sincronizados que o esquema exige de nós.

Querem pôr uns panos de utilidade duvidosa por cima do meu maiô de bailarina e eu não percebo porquê. Adornar o belo é romper-lhe com a simplicidade e, por inerência, torná-lo mais feio. Ficamos muito mais “nós” apenas assim. Era, aliás, desta maneira, que gostava que me descobrisses. De costas nuas, olhos semi-serrados e dedinhos abertos. Com a minha essência toda ao de cima. A descobrir-me a mim mesma e a um mundo inteiramente novo dentro de um pequeno ringue. As bancadas já não me assustam: transmitem-me antes a energia que, aliada à ligeireza dos movimentos, resulta numa explosão de encantamentos.

Rodopio. Elevo-me. Flutuo. Arqueio os braços e os dedos tocam-se, no alto da cabeça. Faço piruetas, piões, saltos. Movo-me, rastejo, deslizo. Ergo-me. O corpo inanimado do quotidiano, ganha uma vida nunca antes descoberta. O cabelo solto, com ondas a caírem-me sobre os ombros, atrapalha. Apanho-o bem no cimo. Um gesto, uma dança.

Visto a capa e deixo de ser eu. “Pelo céu cinzento/ Sob o astro mudo/ Batendo as asas pela noite calada/….”. Vampiros. A luz apaga-se. Medos. Rodas de pesadelos. Choques. Vermelho e preto, numa mistura de sangue e podridão.

Em posição de avião, com o pé bem arrebitado lá a trás e a cabeça bem esticada cá à frente, os patins não pesam. Fazem parte de mim, são uma extensão das pernas. Deito-me em andorinha e deixo de ouvir a música: apenas as rodas a girar violentamente. Com a cabeça tão próxima do chão, as imagens tornam-se também desfocadas e, quando estou a prestes a perder os restantes sentidos, a flecha mata-me e vou a raspar pelos tacos até que a vitalidade me seja novamente concedida.

Mas eis que tocam as cornetas! A corte prepara-se, é anunciada e entra em palco. Princesa? Donzela? Pergunto-te: "Concedes-me esta dança?" Tu mandas, o baile termina. Assim como a imortalidade prometida.
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(Festival dia 23 de Junho)

Monday, June 18, 2007

"Anda daí, já chega"

Envolveu-se nos seus próprios braços em desespero profundo.
A necessidade de um simples abraço, físico ou emotivo, fazia-se sentir mais do que nunca. Não um abraço “químico”, nas duas interpretações que a palavra possa ter. Conforto. Apenas isso.
Colo, aconchego. Fazia calor mas, ainda assim, tapou-se “até ás orelhas” com o frouxel ao xadrez, desejando que o calor que a fazia transpirar fosse, por osmose, transferido para o interior de si.
Puxou os joelhos e encostou-os ao peito. Respirou fundo e tentou, um pouco em vão, controlar os soluços. Tentou concentrar-se em coisas absurdas: “preciso de trocar a fronha a esta almofada”. Escapa um choro mais forte. As mãos tapam a boca, pouco depois de ele ter fugido… Nada a fazer, já ecoava pelo quarto. Bateu nas paredes, fez ricochete e atingiu-a em cheio na alma, provocando um suspiro que se alongou até ao outro dia de manhã.
Os pesadelos da noite agarraram nela e furaram-lhe o coração. O sangue jorrou, fazendo alastrar uma mancha negra dentro de si mesma. Abriram-lhe os pulsos e, de dentro deles, sugaram a força. Voltaram a coser-lhos, como se nada se tivesse passado. Mandaram-na levantar-se, apesar da fraqueza e debilidade, mais do que evidentes.
Caiu no chão, redonda. Entreabriu os olhos e, por causa do esforço, desfaleceu.

“Anda daí. Já chega.”

Notar
“Químico”:
- comprimidos
- paixão

Saturday, June 16, 2007

Exames

Biblioteca.

Exames, exames, exames.

Há vida DEPOIS deles. Até lá camaradas!

Tuesday, June 12, 2007

RRRH



Tapem os ouvidos que eu vou dizer uma coisa muito feia.

(RRRRRRRRRRRHHHHHHH)

Pronto, já está. Destapem-nos.

Sunday, June 10, 2007

Pacotes de Açúcar

“Saborear é a melhor coisa do Mundo”.
“Namorar é a melhor coisa do Mundo”.
“Amar é a melhor coisa do Mundo”.

Decidam-se. Afinal, o que é a melhor coisa do Mundo?

“- O primeiro pacote não pode ser, vamos exclui-lo. Saboreias, comes, ficas gorda. E ser gorda não é a melhor coisa do Mundo”.

(Gargalhada do Hugo).

“- Agora é que é difícil. Uma coisa não implica a outra, mas na prática… Namorar sem amar não é, definitivamente, grande coisa. Mas amar sem namorar? Epa, o raio do pacote devia ser mais explícito!”

“- Oh! Se amas e não namoras é porque não és correspondida. E se é assim, deixas de amar, simples!” (by Rapariga dos cabelos cor-de-rosa, óbvio)

(Eu e o Hugo reviramos os olhos).

“- Exacto, exacto. Adianta contradizer-te? Tão madura numas coisas, tão infantil noutras… Enfim! Mas lá que é difícil de decidir, isso é! Quando amas e és correspondida, achas que é, definitivamente, a melhor coisa do Mundo. Quando não és, achas que não há nada pior que o amor.”

“- Há quem diga que os altos compensam os baixos…”

(Rapariga dos cabelos cor-de-rosa a revirar os olhos).

Eis que chega a dona Anabela, os croissants com chocolate interrompem a discussão (que estava a ser gravada pelo mp3 da Cor-de-rosa. Definitivamente, as nossas conversas davam um programa de rádio).

PS- As falas não estão identificadas com o locutor porque já nem sei quem as disse. Mais uma das minhas crises de identidade… às vezes já nem sei se sou eu ou o Hugo.

PPS- Como é que uma miúda indefesa e desprotegida como a Catarina (a dos cabelos metaforicamente cor-de-rosa) já vai para a faculdade? Bolas, crescer é uma coisa mesmo rápida! Sem ela, isto vai ter, definitivamente, muito pouca piada.

Saturday, June 09, 2007

Lado a lado

Estende uma das mãos, devagarinho. Podes tremer, não faz mal. Afinal, “se morresses agora”, como seria?

(Foi há muito, muito tempo. Muito mesmo. Saíam duas vozes do rádio, enchiam o quarto todo, faziam-me apertar o peito com as mãos. Lado a lado com pessoas que estavam longe, percebi que há concertos que se ouvem de olhos fechados. E que não há mal nenhum em deixar cair lágrimas. Pela noite dentro, as vozes entoavam).

Consegui hoje a gravação. Lado a Lado (Mafalda Veiga, João Pedro Pais).
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(Onde estás tu, Ana? Quem és tu? Definitivamente, não a mesma.)
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E se te deixasses de crises de identidade e te dedicasses a coisas importantes, hem?

Wednesday, June 06, 2007

(O)pressão

Não é uma questão de mudança: suponho que tenha mais a ver com uma gradual influência de factores externos, mais do que com qualquer coisa. Não parte de ninguém, não faz parte de ninguém. É exterior. Estranho, muito estranho.

A influência do meio. Até onde é importante? Até quando? Às vezes penso nisso como numa forma de ópio: enquanto droga, que serve de desculpa e de (des)engano. Enquanto fuga de nós mesmos. Enquanto ilusão irrisória de que o que sentimos é real, é definitivo e é incontestável. Verdades dogmáticas que nos circundam e prendem, traduzindo-se num cativeiro algo honesto. Somos explorados porque isso nos dá prazer, porque ansiamos sempre por mais, porque nos entregamos de livre vontade e consciência, apesar de gritarmos insultos disfarçados de emoção. Fazemos da escravatura nossa escrava. Estendemos as mãos e pedimos que as amarrem. Inclinamos a cabeça e murmuramos um “muito obrigado” sumido.

Os voos são curtos. Mas plenos. Fugazes mas reais. Efémeros. E as quedas tristes, muito tristes. Mas (por vezes) sem lágrimas.

Sunday, June 03, 2007

Baile de Gala

Há coisas que fazem parte. Do Secundário, por exemplo. E que nos fazem sentir verdadeiramente vivos.

Foi muito, muito bom. Nada de “grupinhos”. A ESO, ponto final. E nós somos todos muito giros e ficamos muito bem de fato (viva a auto-estima!).



(A Ju fez falta).

Estranhamente

A vida é a coisa mais estranha que eu já vi na vida. Carece totalmente de lógica e organização. Mesmo quando parece brilhar da limpeza geral que lhe fizemos, há sempre uma gaveta por arrumar.

Felizmente (e isto garanto eu), ser feliz é como andar de bicicleta: nunca se perde o jeito.

Friday, June 01, 2007

Criancinha

La la la.

Gosto à brava deste dia. Gosto mesmo.

"Bah, és uma criancinha!". Ah pois sou, muito obrigado!

Parabéns para mim. E para quem se sentir assim =)

Thursday, May 31, 2007

Brócolos

“Os brócolos fazem bem à saúde. Se a tua vida é igual à deles, não estás nada mal!” _ Leonor.

Boa maneira de perspectivar as coisas. Quando for grande também vou ser uma pessoa optimista.

Chora

Se te apetece chorar, chora. Não vou dizer que sabe melhor do que sorrir, mas chega a saber bem.

Há coisas que pioram antes de melhorarem.

Sunday, May 27, 2007

Os nossos LOBOS

Todos temos lobos debaixo da cama ou dentro do armário. É esta a minha opinião sincera. Acontece que, depois de algum tempo de convivência, deixamos de os temer e passamos a coexistir com eles.

Dantes corríamos para a cama dos pais. Chorávamos, tapávamos a cabeça com os lençóis. Dormíamos com a luz acesa, abraçados à almofada ou a um daqueles peluches de pêlo macio.

Entretanto crescemos (e os lobos também) e fomos acumulando toda uma outra série de bichos, monstros mais ou menos assustadores com quem partilhamos as noites e os Domingos chatos. Mas estamos tão habituados a eles e eles a nós que chegamos a ter confiança para fechar a porta do armário ou espreitar para debaixo da cama e dizer: “Xiu, deixa-me dormir”.

Não que eles sejam inofensivos, claro. Continuam a ter garras e dentes afiados. E obviamente não deixaram de rugir e uivar para aprenderem a miar. Mas estão mais mansos: chegam a ronronar quando lhes passamos a mão pelo dorso.

Um novo lobo é sempre difícil de domesticar. Salta-nos em cima a meio de um sonho, dá-nos murros que se traduzem em olheiras escuras e profundas, arranca-nos os cabelos um a um (ou pinta-os de branco), faz-nos bater com a cabeça nas paredes. No fundo, acrescenta-nos um pouco mais de loucura. Mas continuamos a ser nós os seres racionais que, mais tarde ou mais cedo, ganham a luta.

É um círculo vicioso. Lobo atrás de lobo, monstro a monstro, fera a fera, construímos um caminho que nunca chegamos a perceber bem qual é. Agigantamo-nos, aumentamos, amadurecemos. O que não podemos mesmo é deixar de querer procriar lobos. Porque no dia em que isso acontecer, morremos por dentro.

Como o Pedrinho me perguntou (e que bem perguntado Pedrinho!): “quando conseguimos o que queremos, será que ainda queremos o que conseguimos?”. Claro que não. Queremos sempre mais, e ainda bem que assim é (desde que a ambição não seja desmedida). Porque no dia em que dissermos, definitivamente, “estou bem assim, não faço mais nada”, conformamo-nos. E o conformismo é, definitivamente, um veneno coercitivo.

(No entanto Pedrinho, ficamos muito felizes quando conseguimos o que queríamos. E matamos uns quantos lobos rebeldes).

Friday, May 25, 2007

Somatognosia

Volta tudo, num turbilhão de emoções. Vozes ao longe, soam alto. Dessincronizadas, é certo, mas audíveis. O burburinho atmosférico percorre-me enquanto elas brincam com o corpo e com a música em cima do palco. Encontro-me também eu em cima de um palco/ringue, sem tom nem som. Perco de completo a somatognosia e prossigo devagar, sem saber bem o que faz ou não parte de mim.
Desperto.
(Bato e oiço palmas).

Que bom que é crescer!

Fase do enterro

Em plena fase do enterro, como diz o Pedrinho.
E ainda vai durar pelo menos mais um mês...

"Estou bem, cansada e rabugenta".

Tuesday, May 22, 2007

Piolhos do Mundo

O Mundo tem piolhos. Dos grandes, que sugam o sangue até à última gota.

Apetece-me abraçá-lo (ao Mundo), acarinhá-lo, sentá-lo nos meus joelhos e, com um daqueles pentes especiais, caçar os piolhos um a um, eliminá-los a todos.

PS- E começarem a convocar-nos, não? Isso é tudo medo dos alunos?

Sunday, May 20, 2007

Amar

Amar é querer muito. Para o outro, do outro, o outro.
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Exprime-te.
Rogo-te que dances. Não é difícil: não te pedi que fosses bailarina.

(Todos filosofamos e poucos somos filósofos.)

Tuesday, May 15, 2007

Baile de Gala: o evento

Critiquem-nos à vontade. Mas sejam realistas, se não for disso, falamos de quê? Vivemos em Ourém e as nossas vidas são semelhantes à de um molho de brócolos. Capiche?

“Suicídio social”. No entanto, “antes comprá-lo que convidá-lo”.

Enfim, quando o outro não lhe corta as asas, somos felizes.